sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Respeite seu público


Escreva Pensando nele e não em Você

por 
José Paulo Moreira de Oliveira*

Alguns pontos a considerar:
 
  • O crescimento avassalador da informática modificou radicalmente os conceitos de tempo, espaço, sigilo e confidencialidade.
  • A escrita passa por profundas transformações, que exigem do redator o desenvolvimento de novas habilidades, resultantes das exigências de um público mais amplo, altamente diversificado e cada vez mais exigente.
  • Todos se ressentem da absoluta falta de tempo. Não há mais espaço para leitura de tratados intrincados e volumosos.
  • Seus escritos só serão reconhecidos e valorizados, quando o leitor entender a intrincada relação custo/benefício. O que o leitor vai ganhar ao investir na leitura de seu texto?
  • Profundidade, pertinência, substância e amplo domínio do assunto são virtudes que não saíram de moda. O problema reside na forma como esses conceitos serão transmitidos ao leitor.

Para que sua produção textual consiga o merecido retorno, é fundamental que você tenha o mais amplo conhecimento do público-alvo que deseja atingir.
Para tanto, tenha sempre em mente as seguintes questões:

  • Seus leitores em potencial são técnicos ou leigos no assunto?
  • O trabalho a ser produzido é de circulação interna? Sua comunicação será dirigida a uma categoria profissional específica ou você pretende atingir amplos e diversificados setores da sociedade?
  • Qual o grau de especificidade a ser imprimido ao trabalho?
  • A linguagem utilizada dá margem a crer que o texto terá boas chances de ser lido e compreendido por alguém que não tenha participado, direta ou indiretamente, de sua elaboração?

Mantenha o foco no Leitor

Se o leitor não é um especialista, a informação breve, clara e expressa em linguagem acessível será mais do que suficiente. Para o público em geral, interessa saber que um termômetro é “instrumento destinado a medir a temperatura dos corpos” (Michaelis, 1998). Inútil e desnecessário será explicar seu mecanismo de funcionamento ou ainda falar das experiências de Fahrenheit, Six, Celsius, Rutherford ou Geissler com o calor.
Se o leitor é um especialista, deve-se privilegiar a informação que vá ao encontro das necessidades informacionais desse público específico. Para um epidemiologista, é importante saber que seres humanos podem contrair o antraz em contato com a terra —, principalmente em contato com animais, em cujo pelo, cabelo e presas o microrganismo pode sobreviver anos a fio. E que, até invadir os pulmões, o risco de contágio é infinitamente menor.
Para especialistas em Defesa, é importante saber que os esporos do antraz podem ser lançados por artefatos de artilharia a centenas de quilômetros e que a bactéria, por ser transmissível pelo ar, pode tornar-se arma poderosa em uma eventual guerra biológica.
Em uma revista dirigida a médicos, matérias relacionadas a novos medicamentos descobertos para o tratamento da aids ou a novas técnicas cirúrgicas para implante de órgãos serão naturalmente apreciadas. Explicar os cuidados que se devem tomar para não contrair o vírus ou descrever os procedimentos legais necessários para fazer uma doação são informações redundantes para esse tipo de leitor – embora sejam da maior relevância para o grande público.
Fica fácil observar como a caracterização do público-alvo é importante para a seleção das informações. Sem esse recurso, estaremos certamente cansando o leitor com pormenores dispensáveis, que só vão desviá-lo do caminho a ser percorrido.
E por falar em caminho, cuidado. Nossa insegurança pode pôr tudo a perder no momento em que competência profissional e hierarquia social aparecem para nublar decisões, principalmente quando se trata de fazer chegar informações técnicas a um leigo.

Não complique

Doutor João preparou uma palestra sobre doenças sexualmente transmissíveis e adaptou o conteúdo técnico às necessidades de seu target: vigilantes e seguranças de uma empresa.  Embora o roteiro elaborado esteja perfeitamente adequado ao público, Doutor João, sentindo-se inseguro, decide fazer pequenos “retoques” no script, preocupado que está em não ser parecer tão simples.
Primeiramente, nosso palestrante substitui use por utilize fazer por fase de implementação. Nessa linha de raciocínio, melhor tratamento vira profilaxia recomendada e remédios se transformam em recursos terapêutico-farmacológicos disponibilizados ao usuário.
Na verdade, o que Doutor X teme é perder o respeito e a credibilidade da plateia apenas por cometer o “pecado” de ser simples e objetivo. A preocupação acadêmica com sua imagem profissional de médico irá falar mais alto e fatalmente levará nosso palestrante a reescrever parágrafos inteiros, nos quais muito jargão técnico será inserido.
Caso insista em manter essa postura, a reação amorfa e indiferente do público será inevitável. Assim, se o resultado obtido ficar aquém de suas expectativas — e as pessoas se sentirem desestimuladas — o médico não deve atribuir o fracasso da palestra ao baixo nível de escolaridade dos vigilantes e seguranças. Afinal, Doutor João conhecia muito bem as pessoas a quem deveria atingir.


*José Paulo Moreira de Oliveira é Consultor Parceiro do Instituto MVC - www.institutomvc.com.br

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